Mais proteína animal e menos ultraprocessados: o que muda na nova pirâmide alimentar dos EUA
Data de Publicação: 15 de janeiro de 2026
Crédito da Matéria: YASMIM GIRARDI – GZH
Fotos: Assessoria de comunicação CRN-2
Fonte: GZH
Evitar ultraprocessados e priorizar “comida de verdade”: essa é a mensagem das Diretrizes Alimentares dos Estados Unidos para 2025–2030. O documento, divulgado na semana passada pelo governo de Donald Trump, visa orientar a dieta dos norte-americanos. Para especialistas brasileiros, a nova pirâmide alimentar é vista como uma fórmula pronta, com poucos detalhes e menos espaço para adaptações na rotina.
“Pela primeira vez, estamos chamando atenção para os perigos dos alimentos altamente processados e reconstruindo, do zero, um sistema falho, com base em ciência de alto nível e bom senso”, diz o site do governo norte-americano destinado à divulgação do novo guia, que tem 10 páginas — ante 164 do guia anterior.
O que muda?
A nutricionista e presidente do Conselho Regional de Nutrição da 2ª Região (CRN-2), Carmem Franco, destaca a postura diferente do país norte-americano em relação a alguns grupos alimentares:
— Os guias norte-americanos antigos deixavam em grande quantidade o consumo de carboidratos refinados (alimentos processados e com farinha branca, como pães, massas e doces), que fazem parte da nossa rotina, mas não deveriam receber ênfase. Hoje, valorizamos mais os carboidratos integrais e eles pontuaram isso. Também há um estímulo maior ao consumo de proteína animal.
Nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos:

“Estamos encerrando a guerra contra a proteína”, diz a apresentação da nova pirâmide. Segundo o guia, o indicado é consumir de 1,2g a 1,6g de proteína por quilo corporal diariamente. Embora a imagem acima não detalhe essa orientação, o documento sugere que a população varie entre fontes animais e vegetais, como feijão, lentilha, ervilhas e grão-de-bico.
Carmem acrescenta que a nova recomendação é contraditória, já que uma antiga orientação do governo norte-americano ressaltava a importância de não consumir mais de 10% das calorias diárias em gorduras saturadas. A nutricionista Giulia Galant nota que, neste sentido, as Diretrizes Alimentares dos Estados Unidos não coincidem com o Guia Alimentar da População Brasileira, criado em 2014.
Para ela, as divergências se referem, no caso da pirâmide norte-americana, ao estímulo exacerbado ao consumo de carnes, incluindo as vermelhas, bem como a orientações exageradas sobre a ingestão de proteínas, ambas em dissonância com a produção científica sobre o tema.
— O guia brasileiro reafirma a cultura do consumo de carnes vermelhas pela população brasileira, mas sugere moderação, considerando a ligação do consumo com maior incidência de câncer de intestino e outras doenças crônicas, como diabetes tipo 2, obesidade e doenças cardiovasculares — ressalta a especialista.
Outra mudança que chama a atenção de Giulia é que a nova pirâmide passou a estimular o consumo de laticínios integrais, na contramão da anterior e de outros guias respeitados no mundo, incluindo o brasileiro. Esses documentos sugerem o consumo de leites com teor reduzido de gorduras (desnatados ou alternativas vegetais), defende a nutricionista.
— As novas diretrizes dos EUA foram formuladas por um comitê composto por nove membros consultivos, sendo que cinco comunicaram, no próprio documento, conflitos de interesses. São financiados pelas indústrias de laticínios, de carne bovina e de carne suína. Isso poderia justificar tanta ênfase em alimentos de origem animal, mesmo que sem embasamento científico — pondera Giulia.
Impactos positivos
A principal mudança do novo guia é o incentivo ao consumo de comida de verdade, ponto considerado central pelas nutricionistas. Em um país como os Estados Unidos, historicamente marcado pelo alto consumo de ultraprocessados, fast food, alimentos congelados, enlatados e doces com açúcares adicionados, o apelo por priorizar alimentos in natura ou minimamente processados representa um avanço.
“Por décadas, fomos induzidos ao erro por orientações que priorizaram alimentos altamente processados, e hoje enfrentamos índices sem precedentes de doenças crônicas”, pontua o governo norte-americano. De acordo com dados apresentados pelo país, 90% dos gastos do sistema de saúde dos Estados Unidos são destinados ao tratamento de doenças crônicas – que podem ser associadas aos hábitos alimentares e ao estilo de vida.
— É uma mudança necessária e que traz muitos pontos interessantes. Se essa pirâmide ajudar a divulgar mais essas melhorias, o incentivo à comida de verdade e ao consumo de água, pode contribuir muito com a saúde da população norte-americana — afirma Carmem, presidente do CRN-2.
As orientações devem impactar principalmente o Programa Nacional de Alimentação Escolar dos Estados Unidos, que é obrigado a seguir essas diretrizes e atende cerca de 30 milhões de crianças e adolescentes, segundo o governo norte-americano.
Olhar amplo e afetivo do Brasil
Sem rodeios, Carmem e Giulia afirmam que não há comparação entre o guia norte-americano e o brasileiro. Para ambas, o Guia Alimentar da População Brasileira é mais completo, ao considerar aspectos culturais, sociais e regionais da alimentação.
Carmen reconhece avanços no novo guia alimentar dos Estados Unidos, mas avalia que o modelo brasileiro é mais adequado por considerar as adaptações a diferentes contextos e fases da vida.
— Quando precisávamos herdar esses guias alimentares de outros lugares, o feijão, entre outras coisas, fazia falta. Porque é algo muito nosso. É um alimento que sabemos que é completo, que tem um papel nutricional e cultural importante. Então tem todas essas nuances, e o norte-americano é mais simples — defende.
A política de alimentação e nutrição brasileira não utiliza um recurso visual como a pirâmide dos Estados Unidos, dificultando uma comparação direta. Ainda assim, Giulia acredita que, no Brasil, a alimentação não é reduzida a grupos alimentares, nutrientes e calorias que necessitam ser ingeridas:
— O nosso guia considera o alimento como um todo, o modo de preparo, o ato de cozinhar, o contexto social e cultural das refeições, também traz impactos ambientais e econômicos das escolhas alimentares.
