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Parecer técnico do CRN-2 sobre consumo de polifenóis na gestação


Data de Publicação: 26 de maio de 2022


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O parecer recomenda que, diante do diagnóstico ecocardiográfico fetal de constrição ductal, o nutricionista orientará a alimentação da gestante de acordo com a Diretriz Brasileira de Cardiologia Fetal, sempre usando bom senso, restringindo os alimentos ricos em polifenóis na dieta materna a partir das 28 semanas de gestação como parte do tratamento.

 

O documento lembra que é fundamental manter uma alimentação saudável, equilibrada e balanceada de acordo com as necessidades de macro e micronutrientes do período gestacional. Porém, alerta que a recomendação é restringir os alimentos e bebidas com concentração ≥ 30 mg/100 g, totalizando até 125 mg de polifenóis ao dia.

Segue, abaixo, o parecer na íntegra.

PARECER

Consumo de polifenóis no último trimestre de Gestação

O Conselho Regional de Nutricionistas – 2ª Região, autarquia federal, criado pela Lei 6583, de 20 de outubro de 1978, regulamentada pelo Decreto 84.444, de 30 de janeiro de 1980, cuja atividade fim é a orientação e fiscalização do exercício profissional e cumprimento das Leis e das Resoluções baixadas pelo Conselho Federal, apresenta:

CONSIDERANDO que o nutricionista é profissional de saúde que atende aos princípios da ciência da Nutrição, realizando acompanhamento nutricional com vista à promoção, preservação e recuperação da saúde do indivíduo ou da coletividade que compreende as fases de avaliação, diagnóstico, intervenção, monitoramento/aferição dos resultados e reavaliação e tem como função contribuir para a saúde dos indivíduos e da coletividade. (Resolução CFN n° 599/2018 - CÓDIGO DE ÉTICA E CONDUTA DO NUTRICIONISTA).

CONSIDERANDO que das responsabilidades profissionais do nutricionista cabe a produção do conhecimento sobre a Alimentação e a Nutrição nas diversas áreas de atuação profissional, buscando continuamente o aperfeiçoamento técnico-científico, pautando-se nos princípios éticos que regem a prática científica e a profissão e que são deveres analisar com rigor técnico-científico qualquer tipo de prática ou pesquisa, adotando-a, somente quando houver níveis consistentes de evidência científica ou quando integrada em protocolos implantados nos respectivos serviços”. (Resolução CFN n° 600/2018 - Dispõe sobre a definição das áreas de atuação do nutricionista e suas atribuições, indica parâmetros numéricos mínimos de referência, por área de atuação, para a efetividade dos serviços prestados à sociedade e dá outras providências).

CONSIDERANDO que durante a gestação ocorrem alterações fisiológicas e metabólicas importantes, como o aumento da demanda de energia e nutrientes decorrente do crescimento e desenvolvimento fetal, da formação e manutenção da placenta, da formação de novos tecidos e do armazenamento de gordura, pela mãe e pelo feto. Dessa forma, as gestantes estão mais suscetíveis à inadequação nutricional, o que torna fundamental a orientação adequada e personalizada para garantir a saúde tanto da mãe como do feto. O consumo de uma alimentação variada e balanceada desde o período pré-concepcional é essencial para garantir a saúde materna e os desfechos favoráveis ​​da gestação.(1)

CONSIDERANDO que o Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda: “alimentos in natura ou minimamente processados, em grande variedade e predominantemente de origem vegetal, são a base para uma alimentação nutricionalmente balanceada, saborosa, culturalmente apropriada e promotora de um sistema alimentar socialmente e ambientalmente sustentável”.(2)

CONSIDERANDO que frutas e vegetais são fontes de diversos nutrientes importantes para a gestação, incluindo potássio, magnésio, fibra alimentar, folato e vitaminas A e C. Estudos apontam que micronutrientes contidos em frutas e vegetais podem contribuir para regulação da pressão arterial e para funções imunológicas e placentárias ideais, que são importantes para o crescimento e desenvolvimento fetal.(3)

CONSIDERANDO que o consumo de compostos fenólicos ou polifenóis são citados na literatura como anti-inflamatórios e antioxidantes, demonstrando efeitos positivos na saúde cardiovascular, câncer, diabetes, saúde intestinal e doenças neurodegenerativas. São exemplos de alimentos com altas concentrações de polifenóis chá verde, erva mate, suco de uva, entre outros. Estes compostos apresentam uma capacidade antioxidante fundamental para o organismo, para neutralizar a ação das espécies reativas de oxigênio, que, quando produzidas em excesso e não destruídas pelas defesas antioxidantes endógenas, podem interagir com o DNA, as proteínas e os lipídeos, culminando no desenvolvimento de algumas doenças.(4,5,6)

CONSIDERANDO que diferentes estudos já estabeleceram que os polifenóis, em suas diversas formas de apresentação e presentes na alimentação, têm definida ação anti-inflamatória e antioxidante, que culmina com a inibição das prostaglandinas circulantes, com diversificados desfechos clínicos.(7,8,9,10,11,12)

CONSIDERANDO que diferentes estudos e diretrizes recomendam que perante diagnóstico ecocardiográfico fetal de constrição ductal, deve ser recomendada a restrição de alimentos ricos em polifenóis da alimentação materna, constituídos por produtos com concentração ≥ 30 mg/100g de alimento, com a finalidade de manter uma alimentação equilibrada, com as necessidades de micronutrientes adequadas para esta fase, porém com concentração reduzida de polifenóis totais, abaixo de 125 mg ao dia (Classe de Recomendação: I; Nível de Evidência: A). Já para prevenção da constrição ductal fetal a recomendação é um consumo moderado de alimentos ricos em polifenóis, no terceiro trimestre da gestação ou limitando o consumo dos alimentos com concentração acima de 30 mg/100g. Esta redução do consumo diário de polifenóis abaixo de 1.089 mg mantém um planejamento alimentar adequado de acordo com necessidades nutricionais para este período gestacional (Classe de Recomendação: IIa; Nível de Evidência: C).

O Conselho Regional de Nutricionistas 2ª Região recomenda:

Diante do diagnóstico ecocardiográfico fetal de constrição ductal, o nutricionista orientará a alimentação da gestante de acordo com a Diretriz Brasileira de Cardiologia Fetal (13), sempre usando bom senso, restringindo os alimentos ricos em polifenóis na dieta materna a partir das 28 semanas de gestação como parte do tratamento. É fundamental manter uma alimentação saudável, equilibrada e balanceada de acordo com as necessidades de macro e micronutrientes do período gestacional. Porém, com a recomendação de restringir os alimentos e bebidas com concentração ≥ 30 mg/100 g, totalizando até 125 mg de polifenóis ao dia.

- USDA Database for the Flavonoid Content of Selected Foods Release. 2007. Available at: http://www.nal.usda.gov/fnic/foodcomp/Data/Flav/Flav02-1.pdf.

- Phenol-Explorer. Database on Polyphenol Content in Foods. 2009. Available at: http://www.phenol-explorer.eu.

No caso de prevenção da constrição ductal, o nutricionista poderá orientar de acordo com a diretriz já existente (13), evitando restrições desnecessárias de alimentos nutritivos e saudáveis. Assim, recomenda-se orientar de acordo com a individualidade de cada gestante, utilizando também como base o Guia Alimentar e restringindo os alimentos ultraprocessados.

Atualmente o American College of Obstetricians and Gynecologists recomenda que gestantes não consumam mais de 200 mg de cafeína por dia. Essa recomendação é baseada em achados de que não foram observadas associações para aborto espontâneo, parto prematuro ou restrição de crescimento intrauterino em níveis inferiores a 200 mg por dia. (14) No entanto, estudos recentes relataram que o consumo materno de cafeína, mesmo em doses inferiores a 200 mg, está associado a maior risco de baixo peso ao nascer, bebê pequeno para a idade gestacional (PIG) ​​e restrição de crescimento fetal, sugerindo que pode não haver quantidade segura de cafeína durante a gestação. (15,16,17). Sabemos dos inúmeros benefícios do chá verde (Camellia sinensis), mas seu uso deve ser evitado durante a gestação devido ao risco de causar aborto e nascimento de bebês com baixo peso, justamente pelo seu teor de cafeína. Uma xícara de chá verde de aproximadamente 240ml, seu teor de cafeína pode chá verde variar de 20 a 90 mg, tendo em média 40 mg de cafeína (18). Dessa forma, já existe a recomendação de redução ou exclusão das bebidas com maior teor de cafeína na gestação, como café, chá verde, chá preto e chimarrão. Sendo estas também, bebidas com maiores teores de polifenóis.

 

BIBLIOGRAFIAS :

1) Ramakrishnan U, Grant F, Goldenberg T, et al. Effect of women's nutrition before and during early pregnancy on maternal and infant outcomes: a systematic review. Paediatr Perinat Epidemiol 2012; 26 Suppl 1:285.

2) Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 1. reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014.

3) Mary M Murphy, Nicolas Stettler, Kimberly M Smith and Richard Reiss. Associations of consumption of fruits and vegetables during pregnancy with infant birth weight or small for gestational age births: a systematic review of the literature. Int J Womens Health. 2014; 6: 899–912.

4) Faller AL, Fialho E. Polyphenol content and antioxidant capacity in organic and conventional plant foods. J Food Comp Anal. 2010;23(6):561-68.1

5) Nijveldt RJ, van Nood E, van Hoorn DE, Boelens PG, van Norren K, van  Leeuwen PA. Flavonoids: a review of probable mechanisms of action and

potential applications. Am J Clin Nutr. 2001;74(4):418-25.

6) Wollgast J, Anklam E. Polyphenols in chocolate: Is there a contribution to human health? Food Res Int. 2000;33(6):449-59.

7) Pedra SRFF, Zielinsky P, Binotto CN, Martins CN, Fonseca ESVB, Guimarães ICB et al. Diretriz Brasileira de Cardiologia Fetal - 2019. Arq Bras Cardiol. 2019; 112(5):600-648.

8) Zielinsky P, Piccoli AL Jr, Manica JL, Nicoloso LH, Vian I, Bender L, et al. Reversal of fetal ductal constriction after maternal restriction of polyphenol rich foods: an open clinical trial. J Perinatol. 2012;32(8):574-9.

9) Zielinsky P, Manica JL, Piccoli AL Jr, Nicoloso LH, Barra M, Alievi MM, et al. Fetal ductal constriction caused by maternal ingestion of green tea in late pregnancy: an experimental study. Prenat Diagn. 2012;32(10):921-6.

10) Zielinsky P, Piccoli AL Jr, Manica JL, Nicoloso LH. New insights on fetal ductal constriction: role of maternal ingestion of polyphenol-rich foods. Expert Rev Cardiovasc Ther. 2010;8(2):291-8.

11) Zielinsky P, Piccoli AL Jr, Manica JL, Nicoloso LH, Menezes H, Busato A, et al. Maternal consumption of polyphenol-rich foods in late pregnancy and fetal ductus arteriosus flow dynamics. J Perinatol. 2010;30(1):17-21.

12) Zielinsky P, Piccoli AL Jr, Vian I, Zilio AM, Naujorks AA, Nicoloso LH, et al. Maternal restriction of polyphenols and fetal ductal dynamics in normal pregnancy: an open clinical trial. Arq Bras Cardiol. 2013;101(3):217-25.

13) Pedra SRFF, Zielinsky P, Binotto CN, Martins CN, Fonseca ESVB, Guimarães ICB et al. Diretriz Brasileira de Cardiologia Fetal - 2019. Arq Bras Cardiol. 2019; 112(5):600-648.

14) ACOG Committee Opinion No. 462: Moderate caffeine consumption during pregnancy. Obstet Gynecol. 2010;116(2 Pt 1):467-468.

15) Gleason JL, Tekola-Ayele F, Sundaram R, et al. Association between maternal caffeine consumption and metabolism and neonatal anthropometry: a secondary analysis of the NICHD fetal growth studies-singletons. JAMA Netw Open. 2021;4(3):e213238.

16) Rhee J, Kim R, Kim Y, et al. Maternal caffeine consumption during pregnancy and risk of low birth weight: a dose-response meta-analysis of observational studies. PLoS One.2015;10(7):e0132334.

17) Chen L-W, Wu Y, Neelakantan N, Chong MF-F, Pan A, van Dam RM.  Maternal caffeine intake during pregnancy is associated with risk of low birth weight: a systematic review and dose-response meta-analysis. BMC Med. 2014;12(1):174.

18) Laelago T. Herbal Medicine Use during Pregnancy: Benefits and Untoward Effects. Herbal Medicine, 2019. DOI: 10.5772/intechopen.76896